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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

"Pra Que Vou Recordar o Que Chorei"? (Carlos Dafé)

Não quero mais saber de ti
Vou me recuperar, quero sorrir
Quero sorrir...
Esquecendo a quem amei,
Pra que vou recordar o que chorei?
Se uma frase já não basta
Pra dizer tudo o que sinto
Quando bate o coração...
Pra evitar o sofrimento
Não se deve, nesta vida,
Só envolver com a ilusão...


O ano acabou de começar e nada melhor que uma mensagem altamente positiva. E "Pra Que Vou Recordar o Que Chorei" é talvez o maior exemplo disto. Lançada num disco homônimo do Carlos Dafé pela WEA/Atlantic em 1977, é talvez um dos melhores exemplares para ilustrar o comportamento geral dos músicos do movimento Soul Brasil.
Antes de falar da música, vamos falar um pouco deste movimento musical que começou a crescer no início dos anos 70 e teve seu ápice entre os anos de 1976 e 1978.
Como todos sabem (ou presumo que saibam) o movimento Soul Music surgiu do Rythm & Blues, no fim dos anos 50, principalmente no sul dos Estados Unidos. Dois fatores foram fundamentais para o crescimento deste movimento: o primeiro foi quando o Rock'n Roll (também originário do Rythm'n Blues) atingiu seu ápice, alcançando a classe média branca. O segundo foi a fusão da música gospel, relegada ao ambiente de igrejas, com o embalo sistemático do Blues. Com estes dois elementos, mais a fundação da Tamla/Motown - que entrou num mercado dominado pel a Atlantic, especializada em cantores e músicos negros -, o Soul Music (em inglês, "música da alma") dominou o mercado entre o fim dos anos 50 até o fim dos 70.
No Brasil, o Soul Music aportou de maneira oficial com o surgimento da ATCO, um selo da Continental (Gravações Elétricas) especializado em relançar obras da Atlantic americana no território de Pindorama. Nesta mesma época, a defunda Rozemblit/Mocambo começa a trazer os primeiros discos da Motown para o Brasil. Como estas duas gravadoras tinham o cast mais conhecido entre o "soulman" (como eram conhecidos os cantores da Soul Music), ajudou e muito na divulgação do gênero.
Mas esta foi apenas a ponta do iceberg, afinal só lançar discos não quer dizer muito. Acontece que a música negra americana era um perfeito elemento que misturava balanço e ritmo. Logo, um monte de coisas acontecem ao mesmo tempo. Vejamos:
1) Miriam Makeba, cantora sul-africana, apresenta-se na TV Record em 1969, trazendo seu grande sucesso "Patah-patah". A música foi tão associada aos negros que tornou-se sinônimo daquele pente raso típico de quem possui cabelos curtíssimos;
2) Os cantores e compositores da Jovem Guarda, buscando uma maior gama de musicalidade - e menor rejeição dos intelectuais - começam a apostar em versões musicais de canções do Soul Music. É desta época a versão de "Unchain My Heart" ("Aceite Meu Coração"), cantada por Roberto Carlos e o lançamento do disco "Na Onda do Boogallo", de Eduardo Araújo, que misturava Black Music com rock sessentão inglês da melhor estirpe. Neste disco, surge um certo Tim Maia, ainda como compositor, na clássica "Embrulhe Esta Marmita";
3) Os "queridinhos" da época, os espetaculares Beatles, haviam lançado em 1965, um álbum clássico chamado "Rubber Soul". Neste disco, misturavam conceitos da música negra com o seu Rock amplificado, fugindo do conceito esteriotipado que carregavam de "mauricinhos". Neste disco, encontra-se um dos seus maiores clássicos, a belíssima "Eleanor Rigby", que anos depois seria cantada pelo grande mestre do Rythm'n Blues, Ray Charles;
4) A cereja do bolo foi o surgimento de alguns grupos fundamentais para assimilarem os conceitos da Soul Music com os nossos ritmos nacionais. É o caso da Brazuca, de Antônio Adolfo, dos Brasões, do cantor, arranjador e maestro Erlon Chaves e da música de Wilson Simonal, um entertainer por natureza, que curtia o sucesso da "pilantragem" (espécie de samba mais cadenciado e juvenil, criado pelo cafajeste mor Carlos Imperial).

Observando tudo isto, temos a dimensão exata de como a Soul Music entrou no território brasileiro. Mas por que só em 1976 é que ela atinge seu ápice?
Simples: até 1975, o Brasil viveu um dos períodos mais duros da sua história, que foi a fase das perseguições políticas. Neste instante, com os linha-duras no poder, não faltavam casos e pessoas que saiam para tomar café ou comprar um maço de cigarros e que não voltaram até hoje. Sair depois das 22 horas era assinar um atestado de suicídio, pois você poderia ser preso por transitar em lugar suspeito. Aliás, dez anos depois, o abusado baiano Raul Seixas brincaria com esta fase nebulosa do nosso Brasil em "Metrô Linha 743".
Com o afastamento de vários líderes da linha-dura do exército, a partir do governo Geisel, a galera sentiu um pouco mais de espaço para manifestar-se. Some-se a isto o fato de que, nas regiões mais carentes, o pobre era cada vez mais afastado do rico - se tu quiseres ter uma visão clara disso, assista o filme "Cidade de Deus" e recorde-se do prólogo, quando Buscapé fala como surgiu a Cidade de Deus. Bom, o povo mais pobre e mais carente não tinha condição de ficar indo a zona sul beber água de coco e dançar ao som do "Frenetic Dancin' Days". Logo, surge uma alternativa barata e simples, que era os "bailes funks".
Antes que algum gaiato venha me dizer que estes bailes funks de 1975 a 1978 era iguais a esta "funkeira" de qualidade duvidosa que impestia os bailes atuais, NADA A VER! Os bailes setentistas eram bem mais organizados, menos vulgares, era um lugar onde se debatia de filosofia a putaria, literalmente falando. A dança, entretanto, tinha um espaço maior, tudo milimetricamente coreografado e ritmado, em passos bonitos e malemolentes. Em tempos que as escolas de samba cada vez mais tornavam-se "empresas", aquela era uma forma deliciosa de o pobre poder expulgar sua raiva, questionando, dançando e curtindo. Com respeito e moderação, claro.
Muita gente de "responsa" cuidava dos bailes blacks. Um destes foi o grande Newton Duarte, o famoso Big Boy, que viria a falecer em 1975. Ele coordenava juntamente com Ademir Lemos os chamados "Bailes da Pesada", coisa fina mesmo, rolando de tudo do bom e do melhor do som negro americano e brasileiro: Stevie Wonder, Al Green, Marvin Gaye, Jacksons 5, Supremes, Dionne Warwick, Tim Maia, Cassiano, Hyldon, Dom Salvador, Soul Bateaux, Banda Veneno (do já falecido Erlon Chaves). Só som "dubão", como diria o síndico.
Carlos Dafé surge nesta época, junto com mais uma pilha de artistas ótimos que apareceram neste mesmo período: Dom Beto, Banda Black Rio, Lady Zu, Gerson "King" Combo, Tony Bizarro e outros. Carlos Dafé vinha numa linha mais romântica, mais envolvente, que ganhou o apelido de "farofada". O seu som não tinha um comprometimento tão grande com o questionamento soial quanto Gerson "King" Combo, por exemplo. O seu negócio eram aquelas melodias onde os casais ficavam juntinhos, dançando de maneira bem sensual, melódica, envolvendo... ou seja, preparando o terreno para o amor. Algo semelhante ao que era feito por Al Green, pelo Chi-Lites e pelo Isley Brothers.
"Pra Que Vou Recordar o Que Chorei?" explodiu na trilha da novela "Dona Xepa", da Rede Globo, juntamente com outro clássico do soul romântico, a belíssima canção de Dom Beto "Pensando Nela". A voz dramática do Carlos Dafé era o adtivo predileto dos casais que dançavam querendo esquecer o "sofrimento" e viver tudo aquilo que era bom. O mais interessante é que, embora a melodia seja bastante dramática, com tons graves constrastando com a violenta voz aguda de Dafé, a letra é altamente positiva. Uma influência das mulheres na nossa MPB? Pretendo falar sobre isto um dia, fazendo um artigo no Pr1meiras 1déias (http://primeirasideias.blogspot.com), bem como a minha tese de mestrado. Mas é algo mais a frente. Mas que a MPB deixou de ser um pouco mais triste com o apogeu das cantoras dos anos 70, não resta sombra de dúvidas.
O interessante é que o autor é categórico a todo instante. Olhem e curtam: "Não quero mais saber de ti/Vou me recuperar, quero sorrir". Ele não coloca a situação em dúvida ou questionamento. Ele afirma que vai mudar, que não vai mais sofrer e que irá sorrir. Para sacramentar a sua linha de pensamento, Dafé reafirma depois: "Pra evitar o sofrimento, não se deve, nesta vida, se envolver com a ilusão". Ou seja, somente aqueles que se iludem é que irão permitir sofrer os mandos e desmandos do amor.
A letra é simples, mas é uma mensagem bastante válida, ainda mais se consideramos que as pessoas vem, cada vez mais, desiludindo-se com os fatos e outras pessoas. Se formos parar para observar, nós nos desiludimos apenas quando permitimos que o outro seja a nossa única fonte de funcionamento. E não é: você existia antes do outro, será que agora deixará de existir? Lógico que não. Então, seguir em frente, nunca esmorecer, estar adiante dos fatos. Tudo isto torna, cada vez mais presente, a situação de você superar os desafios. Se achar que é somente uma música que fala de amor (o tema universal dos compositores), substitua por vida. O sentido será o mesmo.
Então, nada melhor pra começar o ano que uma música otimista, pra cima, que não alimenta desilusões, mas vitórias e felicidades. Uma verdadeira música da alma. Façam o download e deliciem-se!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

"Tarde em Itapuã"(Vinícius/Toquinho)

Raimundo Poeta e seu grande amigo, o poetinha Vinícius de Moraes


"Tarde Em Itapuã"
Um velho calção de banho,
Um dia pra vadiar,
Um mar que não tem tamanho
E um arco-íris no ar.


Depois da Praça Caymmi
Sentir preguiça no corpo
E, numa esteira de vime,
Beber uma água de coco, é bom...


Passar uma tarde em Itapuã,
Ao sol e mar de Itapuã,
Ouvindo o mar de Itapuã,
Falar de amor em Itapuã.

Enquanto o mar inaugura
Um verde novinho em folha
Argumentar com doçura
Com uma cachaça de rolha.


E, com um olhar esquecido,
No encontro de céu e mar
Bem devagar ir sentindo,
A terra toda a rodar, é bom...


Passar uma tarde em Itapuã,
Ao sol e mar de Itapuã,
Ouvindo o mar de Itapuã,
Falar de amor em Itapuã.


Depois sentir o arrepio
E o vento que a noite traz
E um diz-que-diz macio
Que mora nos coqueirais.

E nos espaços serenos,

Sem ontem, nem amanhã

Dormir nos braços morenos
Da lua de Itapuã, é bom...


Passar uma tarde em Itapuã,
Ao sol que arde em Itapuã,
Ouvindo o mar de Itapuã,
Falar de amor em Itapuã.


Lançada em 1972 no disco "Vinícius, Toquinho e Marília Medalha" (RGE-Fermata), embora tenha sido composta um ano antes, "Tarde em Itapuã" é um clássico absoluto da nossa MPB. O engraçado é que a praia que serve de inspiração não é exatamente Itapuã, mas a Praia dos Coqueiros, localizada na divisa entre Piatã e Plakafor.
Na verdade, há um pouco de cada nesta história. Algumas pessoas moradoras da antiga Rua J de Itapuã (hoje Rua da Poesia, onde também reside Juca Chaves), onde viveu Vinícius entre 1970 e 1974 - tempo em que ele foi "casado" com Jessy-Jessy - afirmam que o poetinha escrevera os versos admirando a praia de Itapuã da varanda de sua casa. Entretanto, uma versão mais fidedigna parte tanto da Jessy-Jessy quanto do Toquinho, de que Vinícius odiava a Praia do Farol (a verdadeira praia de Itapuã) e que fizera a música numa das suas muitas passagens pela Praia dos Coqueiros. Hoje, infelizmente, o local tornou-se uma região popularesca, cheia de barracas tocando som de péssima qualidade, com a areia e a água sujas, sendo que a sua noite é ponto principal de "pisteiras", termo pelo qual são chamadas as garotas de programa que vivem nas ruas.
Entretanto, voltemos para uma Salvador bucólica de fins de 1960 e início dos 70. Poucos sabem, mas nesta época, nossa cidade era tudo, menos evoluída. Com excessão do centro, o resto da capital respirava ares de província. Não existia Avenida Paralela, tudo era mato - havia apenas o projeto do Centro Administrativo. Pituaçu, Boca do Rio, Armação, Jardim dos Namorados e Jaguaribe eram chamadas de "subúrbio norte de Salvador". A Cidade Baixa era um completo lamaçal, sendo urbanizada apenas do Comércio a Igreja do Bonfim - a Avenida Tiradentes, outra via do local, era de terra batida, fato que acabou dando o seu nome definitivo: Caminho de Areia.
Não havia ainda para ninguém Cajazeiras, o mega-projeto de urbanização popular surgido em 1974. Bairros como Sete de Abril, Pirajá e Castelo Branco eram verdadeiras "cidades do interior", distantes mais de duas horas de tudo. A BR-324 não passava de uma via simples (hoje é dupla). Não existia Acesso Norte, você tinha que obrigatoriamente passa pela Barros Reis (recém-feita nos anos 60) e pelo Retiro (bairro afastado e pouco populoso na época) para entrar na recém-inaugurada Avenida Mário Leal Ferreira, conhecida como Bonocô - pois localizava-se no vale que dividia Brotas. Esta era um bairro bem simples, loteado dentro de uma fazenda, sem maiores atrativos. São Caetano e Pau da Lima eram outros dois bairros bastante estagnados e que cresciam quase que como distritos independentes.
Esqueça Iguatemi. Salvador possuia apenas dois shoppings, se é que podiam ser chamados assim: de um lado, o Shopping Largo do Tanque (na realidade, chamava-se Centro Comercial Largo do Tanque, a alcunha shopping só veio surgir nele nos anos 80) e, do outro, o Shopping Orixás Center, no Politeama, com umas quinze ou vinte lojas, mal estruturado e que hoje é um dos lugares mais adequados para se alugar roupas de festa a rigor ou casamentos. E, dizem os entendidos, point gay da cidade. Não ando por lá pra afirmar!
Dentro deste contexto, voltemos para Itapuã, um bucólico bairro de subúrbio, sem nenhuma sofisticação, com casas de veraneio de famílias melhores financeiramente que a maioria da população local, representada pelos pescadores que moravam pelas cercanias. Algo como a Barra no fim do século XIX.
Quando Vinícius por aqui chegou, procurou um lugar bastante afastado para morar. E Itapuã era o lugar mais indicado para isto. Tudo que ele queria era poder amar Jessy-Jessy, fazer seus poeminhas, receber seus amigos e, principalmente, degustar de whisky, amendoim e da sua banheira em um toillet repleto de imagens de bundas. Verdade!
É claro que, mesmo indo para um bairro afastado, a chegada de Vinícius a Salvador não deixou de ser um fato bastante comentado na mídia ainda provinciana existente na cidade. Para se ter uma idéia, embora tivessemos quatro jornais de grande circulação (A Tarde, Jornal da Bahia, Diário de Notícias e o recém-criado Tribuna da Bahia), existiam somente duas emissoras de televisão naquela que era a quarta maior capital do país em população: a TV Itapuã e a TV Aratu. Talvez este fator tenha sido até, de certa maneira, o responsável por fazer a visita de Vinícius ser bastante comentada. Há o caso, que inclusive tomou proporções nacionais, do poema que Vinícius fizera criticando o prefeito Clériston Andrade pela ausência de um poste de luz em Itapuã. Aliás, isto é típico das cidades provincianas e Salvador não perdeu, ainda hoje, este estilo. Tanto que até hoje alimenta o estigma de ser "um ovo". Qual bom baiano nunca ouviu a expressão "Salvador é um ovo, todo mundo encontra todo mundo". E olhe que temos quatro milhões de habitantes!
Quando Vinícius pensou em "Tarde em Itapuã", sua intenção era simplesmente poder homenagear aquele bairrozinho que o acolhera tão bem. O engraçado é que a música parece funcionar justamente onde Toquinho e Jessy-Jessy alegam ser a real inspiração. Quando você chega na região da Praia dos Coqueiros - logo após o SESC-Piatã e o Costa Verde Tennis Clube -, mentalmente já escuta a música ressoar na tua mente. O clima ameno do lugar, mesmo com todos os problemas da atualidade, dão a tônica daquele ambiente gostoso e "vagabundo" que Vinícius incita na sua letra (Um velho calção de banho/Um dia pra vadiar/Um mar que não tem tamanho/E um arco-íris no ar). Um colega meu do tempo em que fiquei na PM costumava dizer nas nossas apresentações do coral: "Isto é música tipicamente de velho cachaceiro". O pior que não deixa de ser verdade; mas, claro, no bom sentido.
Outro fato que ajudou bastante a evolução da letra foi a melodia imposta por Toquinho. Imposta sim. Poucos sabem, mas Vinícius ainda achava Toquinho meio "moço demais" para compor (embora, na época, ele já contasse uns 28 anos, tivesse experiência de festivais e fôra aluno do grande mestre Paulinho Nogueira). E o que deu? Uma harmonia tão bem feita, mas tão bem feita que não há quem consiga desvencilhar-se dela. Reza a lenda que Toquinho inspirou-se nos modos musicais dos "sambas da Bahia" de Dorival Caymmi e nos seus maneirismos para criar a composição. Aliás, é bastante engraçado perceber que muita gente confunde "Tarde em Itapuã", atribuindo a obra justamente a Dorival Caymmi. O que, justiça seja feita, seria válido, pois tanto a dupla Vinícius & Toquinho quanto o Dorival Caymmi são donos de uma herança rica da nossa música popular.
O refrão é de uma simplicidade tamanha e, ao mesmo tempo, de uma beleza incomensurável. Quando é cantado o Passar uma tarde em Itapuã/Ao sol que arde em Itapuã/Ouvindo o mar de Itapuã/Falar de amor em Itapuã, não existe ser humano no mundo que consiga dizer de envolver-se. Mérito novamente da bela parceria: enquanto Vinícius utilizou seu jeito simples de criar uma letra sem complicações ou papo-cabeça (fato que inclusive o levou a ser taxado de alienado e compositor de easy music), bastante emotiva e ausência quase total de verbos (note que a maioria dos versos estão escritos em orações reduzidas no gerúndio e no infinitivo), Toquinho aprimorou o nível do toque de teu violão, dando mais destaque ao instrumento nesta parte da canção. Parece-nos que o balançar do coqueiro é quem dita as trilhas da canção. Um compasso lento, mas que no refrão levemente aumenta. Parece-nos uma conversa de amigos num boteco, falando das virtudes dos "braços morenos da lua de Itapuã" e cantando em uníssono o doce refrão.
Quem também deu um toque todo especial a canção foi a belíssima cantora Marília Medalha, que a esta época já sofria o pão que o diabo amassou pela perseguição ao seu marido, o dramaturgo Isaias Almada. Aliás, que país este nosso, hein? Se por um lado valorizamos grandes cantoras como Clara Nunes, Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia, por outro esquecemos cantoras tão quão ou até mais encantadoras, que poderiam ter tido um outro caminho no mainstream se fizessem certas concessões absurdas. Só para citar, temos Diana Pequeno, Maria Creuza(esta era a cantora favorita do Vinícius), a própria Marília Medalha, Cláudia, Maria Odette, Doris Monteiro, Joyce, Jane Duboc, Fátima Guedes, Zezé Motta... mas é isso, cada país tem a Barbra Streisand que merece. No nosso caso, a Ana Carolina. Argh!
A participação de Marília com sua voz grave e madura (embora fosse uma jovem de 29 anos) é de uma riqueza extrema. Graças a ela, sentimos um gostoso envolvimento feminino com a música, atmosfera que Vinícius sempre explorou e muito bem - apesar de notadamente machista e, de certa maneira, conquistador barato. Não são só os homens que vêem as virtudes de Itapuã; as mulheres também. De preferência aquelas maduras e independentes, personalidade que Marília adquire com vigor e paixão. O seu cachaça de rolha é uma das mais gostosas intervenções feitas por uma mulher numa canção cuja letra fora feita pelo Vinícius. Só tem uma que consegue superá-la, a Maria Creuza em "Eu Sei Que Vou Te Amar", justamente com a participação do poetinha Vinícius e lançada no mesmo 1972.
Deixo aqui, para download, esta belíssima canção, um dos marcos da nossa MPB. Com toda certeza, uma audição tão gostosa quanto sentir o arrepio e o vento que a noite traz, bebendo uma cachaça de rolha e dormindo nos braços morenos da lua de Itapuã. Boa audição!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

"Vagando"(Paulinho Pedra Azul)



No céu, entre as estrelas, vou cantando
e a terra vai formando um coração.
Palavras são tão poucas pra dizer
que estou vagando assim só por amor.

Ferido, chorando,
com o peito ardendo em chamas.
Estou morrendo em minhas mágoas,
transbordo a lua e vejo o mar.
Não é nem sonho ou fantasia,
é a dor constante e a agonia
de um coração cantando amor.


Esta música ficou conhecida em todo Brasil no ano de 1981, quando Diana Pequeno gravou-a no seu terceiro disco, "Sinal de Amor", ocupando a faixa 3 do lado A. O mesmo foi lançado pela RCA-Victor.
Trata-se de uma das mais belas canções interpretadas por esta injustiçada cantora, na minha opinião uma das melhores que o Brasil já teve. Já autor, Paulinho Pedra Azul, é um dos compositores pertencentes a "geração mineira" que despontou nos anos 70 e que ficou conhecida como "Clube da Esquina".
A mesma classifica-se como sendo uma modinha, estilo musical bastante forte no início do século XX no Brasil. Entretanto, ao andamento, foram utilizados caracteres presentes também na música nordestina, como o uso de viola caipira.
O mais interessante desta composição foi a forma como Paulinho Pedra Azul trabalhou alguns elementos. Nota-se que o assunto da mesma gira em torno da questão dos sentimentos humanos, em especial, o amor. Aliás, o amor é um dos temas mais recorrentes na nossa MPB e, como não poderia deixar de ser, o Paulinho Pedra Azul utiliza-o, mas sem cair nos moldes vulgares e nos lugares-comuns, típicos de autores que só pensam em faturar sobre este "tema universal".
Observe que a palavra "vagando" é a forma nominal no gerúndio do verbo "vagar". Ora, e o que isto interessa na música? Acontece que o autor preocupa-se em usar verbos, em sua maioria, na forma nominal, seja no gerúndio(formando, chorando, cantando) ou no particípio(ferido). E o infinitivo? Aí que vem a grande questão: o autor não se preocupa com o futuro, mas quer saber do presente. Ele demonstra, através disso, que se a dor é uma "constante" em sua vida, ele espera seguir em frente (vagando), buscando assim cantar o seu amor (de um coração cantando amor) um dia.
Aliás, note o predomínio de verbos de ligação (ser e estar), o que demonstra um paradoxo: se o verbo vagar tem valor de ação, como pode ser ligado por um verbo que indica justamente estado? Podemos entender, desta maneira, como uma espécie de "limitação" imposta ao eu-lírico, que sonha em conseguir cantar o seu amor, mas é impedido por conta de um elemento estático que o liga (ou desliga) ao ato de vagar.
Embora triste, a música não é desesperançosa. Note que o autor, logo de cara, posiciona-se ao alto (No céu, entre as estrelas, vou cantando). Ou seja, para ele o que importa é cantar, independente de que alguma coisa o impeça. Além disso, note que ele sabe de suas limitações (Não é nem sonho ou fantasia/É a voz constante, é a agonia), mas nem por isso quer deixar de cantar o amor.
Segue aqui o link para download da música. Lembre-se que este arquivo deve ser deletado do seu computador e é apenas para poder fazer uma leitura melhor a partir da canção. Boa audição!